terça-feira, 8 de março de 2011

Elas São Bamba

 

MulherFlor

8 de Março, dia Internacional da Mulher. Uma data para se comemorar as conquistas do tal “sexo frágil” ao longo do último século. Elas conseguiram o direito de votar, de trabalhar fora, de usar calças, de ficar por cima na cama. Conseguiram voz para lutar por um lugar ao sol, que antes só pertencia aos sacudos.

Mas isso é motivo para parar por aí? De certo que não. O machismo ainda é uma verdade na sociedade, a desigualdade entre os sexos, os estereótipos ultrapassados. Muito já foi feito, mas ainda há muito o que se fazer por elas.

 

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ANA CAROLINA - ELA É BAMBA

"Então vamo lá!:
Ana, Rita, Joana,
Iracema, Carolina"

Ela é bamba!

Ela é bamba!
Essa preta do pontal
Cinco filhos pequenos pra criar
Passa o dia no trampo pau a pau
E ainda arranja um tempinho pra sambar

Quando cai na avenida
Ela é demais
Todo mundo de olho
Ela nem aí
Fantasia bonita
Ela mesmo faz
Manda todas
Não erra a mira...

Mãe, passista, atleta
Manicure, diplomata
Dona da boutique
Enfermeira, acrobata...

(Bailábailá)
Bamba!
Ela é bamba!
Ela é bamba!
Ela é bambá!
(Bailábailá)
Bamba!
(Bailábailá)...hei hei heei!

Ela é bamba
Essa índia da central
Vai no ombro
Um cestinho com neném
Oito quilos de roupa no varal
Ainda vende cocada nesse trem

Toda sexta
Ela fica mais feliz
Vai dançar numa boate do Jaú
Faz um jeito
E já pensa que é atriz
Cada dia inventa um nome

Dora, Isaura, Emília
Terezinha e Marina
Ana, Rita, Joana
Iracema e Carolina...

Ela é bamba!

Dora, Isaura, Emília
Terezinha e Marina
Ana, Rita, Joana
Iracema e Carolina
Laura, Lígia, Luma
Lucineide, Luciana
Quer seu nome escrito
Numa letra bem bacana...

Ela é bala
A mestiça é todo gás
Cada braço é uma viga do país
Abre o olho com ela meu rapaz
Ela é quase tudo que se diz...

Quando compra uma briga
Ela é demais
Vai no groove
E não deixa desandar
Ela é pop, ela é rap
Ela é blues e jazz
E no samba é primeira linha...

"Vamo lá!:
Laura, Ligia, Luma
Lucineide, Luciana
Quer seu nome escrito
Numa letra bem bacana...
Ela é bamba!

sábado, 5 de março de 2011

Primeiro e Último

 

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Tenho pensado muito em você nesse dias. É uma saudade perversa, meio cruel com as memórias que guardo de nós dois. Memórias tão doces, de te olhar nos olhos, enquanto sua cabeça repousava em meu colo; olhos grandes, inocentes, como os de uma criança. E em pensar que era apenas a primeira vez que nos encontrávamos. Eu podia me reconhecer no seu olhar, e me sentir confortável, protegido. Era uma sensação inédita para alguém que nunca tinha experimentado a felicidade.

E, tão logo você chegou, você partiu. A despedida só me faz pensar que éramos tão criança, tão bobos. Dois garotos, parados ali no ponto de ônibus, eu olhando você partir, me perguntando quando e, mais importante, se o veria outra vez. Já sentia saudades, já sentia sua falta. Já me sentia incompleto. Nos veríamos outras vezes nos meses seguintes, sim. Os meses mais felizes da minha vida.

Mas, apesar da alegria implacável por amar você e de todos os planos e idéias que alimentava de ficarmos juntos, eu sabia que jamais conseguiria ficar com você para sempre. Era um misto de medo e premonição. E eu te disse isso, na noite em que passamos na minha cama, ouvindo música. “Você está saindo da minha vida, e parece que vai demorar. Se não souber voltar, ao menos mande notícias”. Você achou que eu estivesse louco, mas eu sabia que as coisas se encaixariam.

Você foi embora. Eu estava de mãos atadas. Queria pedir que não fosse embora, mas não podia. Tenho certeza que não funcionaria. Pensei que poderia ir atrás de você. É engraçado. O que uma criança como eu poderia fazer, indo atrás de você? E, olhando pra trás, hoje, eu sei que você não queria isso. Quando você me disse que não poderíamos ficar juntos, porque as circunstâncias eram complicadas demais, eu sabia que não haveria volta ou remédio. Eu planejava te ganhar, mesmo sabendo que já tinha te perdido. Eu perdi.

Hoje, eu sinto meu coração se contorcer, toda vez que penso: “será que ele ainda pensa em mim? Será que ele ainda lembra de mim?' Do que a gente viveu? Ou será que, depois de tanto tempo, ele se esqueceu?”

Eu lembro.

Contra todas as possibilidades, contra todas as amarguras, contra todas as derrotas e cicatrizes que colecionei desde que você partiu, as memórias de nós dois, na minha cama, na primeira vez que ficamos, ou o nosso passeio pela praça tomando sorvete, ou a primeira vez que vi seu corpo nu na escuridão… Essa são memórias imaculadas. Eu lembro.

Você foi meu primeiro amor. E será o último.

 

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TÃO LONGE
Reação em Cadeia

Quando vi os teus olhos
Eu então acreditei
Pude entender tudo que você quis me dizer
Fui tão longe
Fui tão longe

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Barbárie Institucionalizada

 

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Sei que falei recentemente sobre esse assunto aqui no blog, mas como faz tempo que não posto nada e esse texto me rendeu um “brilhante argumentação”, pensei em compartilha-lo com vocês. É um breve texto sobre trote nas universidades, trabalho feito em sala, em uma aula de português. Infelizmente, não foi permitido falar tudo que gostaria, até passei do limite de linha estipulado, e vocês sabem como gosto de falar. Bem, no mais, achei que era um texto merecedor da audiência de vocês, embora seja um assunto repetido. Vamos ao texto…

 

Barbárie Institucionalizada

 

É impressionante que na nossa sociedade ainda haja espaço para certas posturas juvenis absurdas e ilógicas. E é ainda mais impressionante quando costumes baseados na submissão infundada e na humilhação despropositada ache terreno fértil em faculdades e universidades, locais onde, supostamente, deveriam ser cultivados os valores superiores como respeito ao próximo.

Assim acontece com o trote, forma de “boas-vindas” aos que ingressam no ensino superior, que, em versões mais leves, incluem tintas, esmaltes, alimentos mau-cheirosos ou estragados e outros materiais inconvenientes e cortes de cabelo e roupas. A prática se esconde por trás da inocente desculpa de integrar os calouros com os alunos mais avançados, mas, considerando que há formas menos degradantes de se alcançar o mesmo objetivo, as motivações por trás do trote são a diversão às custa da humilhação alheia.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Do Outro Lado do Mediterrâneo

mediterraneo

Não são apenas os faraós caotéticos a cair na região do mediterrâneo. Há também os bons e velhos primeiros-ministros caotéticos que se julgam além do bem, do mal, do povo, da própria juventude e do próprio conceito de Ética ou mesmo Respeito.

Em suas últimas declarações, Silvio Berlusconi diz “não estar preocupado” com seu julgamento por… bem, por falta de palavras mais precisas… safadeza com prostitutas menores de idade. No mundo da política, isso não chega a ser surpreendente ou inédito. Escândalos sexuais não são novidade, embora eu nunca tivesse ouvido falar em prostitutas menores de idade. Já ouvi falar em secretárias em salão oval, e outras peripécias. Nada que ultrapasse o limite da legalidade, apenas crimes morais.

Mas afinal, porque Berlusconi estaria preocupado, não é mesmo? Pra quem já sustenta uma história de mais de vinte anos de problemas com a justiça e nunca foi condenado, de corrupção política, fiscal a corrupção de menores. Berlusconi é um daqueles exemplos de governantes que deveria aprender com Mubarak e se mandar do poder enquanto ainda lhe resta a liberdade, porque dignidade, essa?, já se mandou faz tempo. Vergonha na cara, nunca teve…

No entanto, sua megalomania egocêntrica, o apego ao poder não lhe permitem ouvir a população italiana e seus contatos políticos lhe garante a possibilidade de permanecer intocado no poder, enquanto envergonha sua nação com declarações estapafúrdias, sexistas ou homofóbicas. Que a onda de revolução política no mundo árabe se estenda aos italianos.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Todos os Impérios Caem

sarcófago

Acabou! A dinastia Mubarak chegou ao fim na tarde de ontem! Depois de quase vinte dias de protesto no Egito, o faraó caoético renunciou ao trono e seu reinado virou história. Foi para o seu balneário em algum lugar no Mar Vermelho. Finalmente se tocou que do jeito que estava, não dá e largou o osso. O povo egípcio se encontra agora livre, com um futuro cheio de possibilidades.

Existem várias lições a serem aprendidas nessa história. A primeira delas é que esses e outros que gostam do poder, deveriam se tocar e largar mãos do egoísmo narcisista e enxergar que a estagnação do governo vicia a máquina social, sufoca e leva a eventuais catástrofes - lição que poderia ser aprendia por uns e outros aqui mesmo no Brasil (leia-se: Sarney). Governo não é bem pessoal, é bem social!

Segundo, como já falei, mesmo que a organização de um povo, com um determinado objetivo, derruba até os governos mais resistentes. Como diz o “V”, “Um povo não deveria temer seu governo. Mas um governo deveria temer seu povo”. Ou algo nesse estilo.

Terceira: a internet tem mesmo poderes mágicos. Com sua ajuda, caiu um governo… Será que com a ajuda dela, cairiam também TODOS os governos? Não custa nada sonhar não é mesmo.

Mas acho que o mais impressionante aqui é perceber, numa comparação talvez injusta entre Brasil e Egito, as diferenças sócio-políticas. Nós somos um povo, talvez não oprimido, mas de muitas maneiras, insatisfeito com o rumo que nossos representantes assumem. Histórias de roubos, corrupção e posturas anti-éticas não faltam em nossos jornais. E, no entanto, não fazemos nada para mudar, para exigir as mudanças políticas de que tanto precisamos. Houve uma época no passado brasileiro em que essas manifestações populares mudaram o rumo de nossa história, tal qual aconteceu essa semana no Egito. Duas vezes aliás. Uma, durante a ditadura militar, os protestos e passeatas contra o regime ditatorial em que vivíamos, e depois o impeachment do presidente Fernando Collor. Esses três momentos compartilham grande insatisfação popular, que ferveu ao longo do tempo e explodiu, causando uma revolta que mudou as coisas.

Hoje, as coisas no Brasil não estão tão ruins e não estão faz um bom tempo, pelo menos dez anos. Claro que também não estão bem. Como disse, problemas não faltam. E nesse equilíbrio bizarro talvez se encontre o motivo de nossa apatia política. As coisas não estão bem como gostaríamos, mas não estão tão ruins a ponto de nos tirar da inércia. Propositadamente ou não nosso governantes nos deixaram nessa estranha posição, nem lá nem cá, garantindo assim a quietude política de que precisam para nos explorar e enganar. Talvez, só talvez, nossa apatia política não seja fruto de nossa alienação midiática ou falta de educação exemplar, e, sim, de nossa própria prosperidade.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sacrifícios

 

Chega-se a uma certa idade, em um certo período da vida em que problemas com relacionamentos são, se não freqüentes, no mínimo, presentes. E com os problemas vêm os conselhos; e com os conselhos, aquelas velhas máximas.

Uma delas, que quase sempre escutei mesmo antes de chegar à idade dos namoros, é que namorar, casar, viver junto, enfim, ter um relacionamento com outra pessoa é uma briga constante, uma verdadeira odisséia, uma jornada que, sem sacrifícios, não vai a lugar algum.

É estranho como essa história possa parecer verdade. Mas será que é mesmo? Talvez essa máxima valesse para o século passado, quando não havia divórcio ou quando ele era mal visto na sociedade. Quando a única opção que se tinha, era viver com a pessoa que você escolheu erroneamente. Dava-se à convivência árdua ares de virtude a ser cativada. Uma desculpa esfarrapada para sustentar uma instituição falida.

Namorar, casar, amar, deve mesmo ser tão difícil assim? Será que é verdade que para se amar é preciso sacrificar e ceder, mesmo contra a vontade própria. Seria apenas uma questão de saber medir, saber equilibrar quando ceder ou não? Amar é se diluir em outra pessoa, e permitir que outra pessoa se dilua em você. Vale a pena carregar esse peso na consciência. Amar não é aceitar o outro como ele é e se alegrar por isso? Então, por que ceder? Por que esperar pelo sacrifício?

Será que me ensinaram a amar errado? Ou eu que não aprendi?…

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Máscaras

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Existem certas idiossincrasias do comportamento humano que me intrigam. Não que isso seja novidade, pois, afinal, eu não entendo muitas coisas desse tal ser “evoluído”. Mas tem umas que realmente me intrigam. E, ao intrigar, instigam meu pensamento na busca por respostas.

Não levo muita fé na bondade humana. Pra mim, todas as pessoas possuem uma essência malévola que é suprimida por certas regras sociais. Assim sendo, quando ouço falar que o trote nas universidades e faculdades é um momento de brincadeira e confraternização para entrosar os calouros e outras choromelas mais, meu sentido cínico logo ataca.

Com outras tantas maneiras de se conseguir entrosar e quebrar o gelo com os novatos, jogar tinta, materiais fedorentos, pós de todos os tipos e cortas roupas e cabelos (para ficarmos apenas nos trotes mais leves, sem mencionar aqueles que acabam em tragédias) me parece ser uma desculpar (das mais esfarrapadas) para se deixar levar por aquela “essência malévola” que falei anteriormente. É como se achassem um momento especial para libertarem o desejo de dominação e superioridade que todos nós escondemos, de exercer poder sobre outros, de humilhar e saciar aquele pequeno demoniozinho que na maior parte das vezes silenciamos dentro de nós.

De onde tirei essa idéia maluca? Da pura e simples observação do comportamento das pessoas ao meu redor e a buscas por outras respostas além das já existentes.

A parte realmente ruim disso tudo é a perpetração dessa cultura mascarada de brincadeira. O desejo de “vingança” deturpado, que se instaura entre um período e outro inocentemente disfarçado, mascarando a perversidade das pessoas e a honestidade delas mesmas.

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O Lobo [Pitty]

Sempre em busca do próprio gozo
E todo zelo ficou pra trás
Nunca cede e nem esquece
O que aprendeu com seus ancestrais
Não perdoa e nem releva
Nunca vê que já é demais.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Não Sou Feito de Aço

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Eu gostava de alimentar a fantasia de que nada era capaz de me atingir. Que, a despeito dos acontecimentos, minha frieza era tanta que poderia ignorar o que quer que fosse. No começo, era claro uma fantasia, que tomou força e fôlego ao longo dos anos e se solidificou em minha personalidade. Por quê? Porque me parecia que ser uma pessoa aberta aos sentimentos, ser uma pessoa vulnerável ao que acontece ao redor era mais uma fraqueza do que uma virtude.

Com o passar do tempo, as coisas que me tocavam já não despertavam mais o menor interesse, quando não instigavam um certo desprezo. Me tornei cínico, sarcástico, seco, arrogante. Tudo para sustentar aquela idéia falível de que valia a pena ser frio como gelo. Na minha cabeça, eu seria capaz de passar por cima de quem quer que fosse, de que seria capaz de perder pessoas sem sentir sua falta, que não precisaria enxergar beleza em certas coisas. Mais e mais, minha mente foi mudando, passando da sensibilidade quase artística para uma racionalidade rígida.

Eu mudei. Tinha conseguido mudar quase totalmente, suprimir aquele Eu fraco que existia. Mas ninguém que tenha nascido como eu pode sustentar uma máscara tão pesada por tanto tempo. Comecei a enlouquecer sem perceber, e quando percebi já era tarde. Na tentativa de ser forte apenas me destruía mais um pouco deixado apenas com uma sombra do que era antes. Mas estava convencido de que era aquela a solução para mim. Ser frio, racional, implacável. E insisti na loucura, convencido de que nada poderia me atingir, mesmo cravejado do flechas no peito.

Mas recentemente, descobri que tudo isso não passa de uma ilusão infantil. Cometi erros que achei que, como um ser frio e insensível, estaria preparado para cometer, e, na verdade, quando o horror me atingiu, me senti desesperado e sem ter para onde fugir. Perdi pessoas ao longo do caminho e chorei como criança, perdido, sem saber como aquilo foi acontecer.

A verdade é que não sou feito de aço.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A Voz de Um Povo

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O país das múmias vive um dos mais longos reinados da história contemporânea. Talvez inspirado por algum dos Ramsés, ou qualquer outro faraó, o presidente Mubarak insiste em reinar soberanamente sobre o Egito. No entanto, seu governo de mais de 30 anos parece estar preste a acabar.

O desejo do povo egipcio por democracia levantou uma onda de prostestos que nem mesmo a polícia foi capaz de conter, ordens foram ignoradas e a ameaça é tão grande que o presidente foi obrigado a tomar um atitude e mandar seus ministros pra casa. Claro que a decisão é pífia, considerando o desejo da população egípcia: o fim do governo Mubarak.

O impressionante em todo esse episódio é a capacidade de um povo estremecer os alicerces de um governo. Ver que um povo oprimido por um governo “monárquico”, rígido, intransitório e deficiente é capaz de se organizar, se juntar, unir e fazer a história mudar. Que fique a lição para aqueles que se sentem injustiçados por seus governos. Reclamar não muda nada. Lutar muda tudo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Nome de Uma Tragédia




A bonança chegou, literalmente, para as milhares, senão milhões de pessoa que vivem (ou viviam) na região serrana do Rio de Janeiro. Centenas de mortos, milhares de desabrigados. A bonança chegou mas o pior ainda parece estar por vir. Reconstruir uma vida inteira que foi levada pelas águas é extremamente difícil.

O desespero ofuscante faz as pessoas desviarem as atenções daquilo que mais importa nesse momento. Reconstruir a vida é certamente necessário, mas descobrir os responsáveis pela tragédia é tão imprescindível quanto. Por quê? Por que, caso os mais desavisados ainda não tenham percebido, todo mês de Janeiro a história se repete. Seja na região serrana do Rio, na área metropolitana de São Paulo, seja no Norte, Nordeste, Sul... Janeiro chega e os noticiários são tomados por notícias sobre chuvas, tempestades, inundações, deslizamentos de terra. O motivo por trás dessas tragédias? Negligência.

Governos negligentes que não fiscalizam e controlam o crescimento urbano de suas cidades, que deixam as pessoas construirem onde elas quiserem - "quiserem" não é o termo exato, afinal, se fosse uma questão de escolha ninguém moraria no morro. Mas é mais fácil deixar que a população construa casas em áreas de risco do que perder votos por desapropriações e desocupações, mesmo que seja para a segurança das próprias pessoas. É mais fácil deixar que construam em áreas de risco do que investir SERIAMENTE em programas habitacionais para evitar o crescimento desordenado que leva a tragédias como a da semana passada. É mais fácil deixar que as casas e ruas ocupem lugar de rios e que o asfalto cura a terra, porque, afinal, onde o povo vai morar?

E, agora, onde o povo vai morar?

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Águas de Março - Tom Jobim

É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
[...]
São as águas de Março fechando verão